Forja do Futuro

Interlúdio - Morte e Assovio

Morte e Assovio

Freixo forte pra arcos de batalha,
pele, casaco e grevas contra o frio.
Flecha de aço vence cota de malha,
a morte vem depois dum assovio.

Espada canta quando desnudada,
não importa se a luta é justa ou vil.
O aço baila sobre a carne rasgada,
antes da morte vem o assovio.

A faca é feito bicho sorrateiro,
rápida e quieta que só cobra de rio.
Morte veloz, parece vir primeiro,
mas não; primeiro sempre é o assovio.

A foice mata de morte bem matada,
o talho dela se abre sem ardil.
Sorriso triste é garganta cortada,
ele anuncia à Morte; E à ele, o assovio.

Sobre os corpos grasnam as gralhas.
Partiram todos num pálido navio.
O silêncio tem gume de navalha.
Não há mais morte. Nem assovio.

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Futuro Fogo Frio, Parte II de IV
Malhas Cruzadas

FUTURO FOGO FRIO, PARTE II de IV – MALHAS CRUZADAS

O Sentinela piscou. Uma batalha. Um guerreiro. O que isso poderia ter a ver com Firmamento? Ele esperava ter visto deuses batalhando, forças cósmicas de magnitude suficiente para sacudir os fundamentos de sua fortaleza – não um conflito insignificante de mortais. Seus olhos de galáxia chisparam pelas Janelas Eternas – a imagem dentro delas começava a mudar. Aquele não tinha sido o fim de sua visão. Imperceptivelmente para todos, mas não para Ele, Firmamento vibrou e inclinou-se mais um pouco. O medo cresceu sob o manto de céu, e ele estremeceu. Era quase como se algo estivesse batendo nas paredes da fortaleza pelo lado de fora…

* * *

Aidan despertou-se e sem abrir os olhos, estendeu o braço e segurou firme o cajado de seu pai. Estava nervoso, era um dia importante, e aquilo o tranquilizou. Abriu os olhos e viu a penumbra fria da tímida manhã que se avizinhava. O sol não saíra ainda de trás dos picos de Vingaard, mas ele estava acostumado com isso, havia levantado-se com as galinhas desde a infância e por toda a adolescência. Daquela época na fazenda, aliás, trazia pouca coisa: O sono pouco, o corpo forte de quem cresceu lavrando o chão e o pesado cajado de seu pai.
“Meu cajado”, pensou Aidan com uma pontada de melancolia. Sentou-se na cama e o depositou em seu colo, pondo-se a mirá-lo. Ainda era difícil pensar no objeto como herança, e às vezes parecia que se ele se concentrasse o suficiente na madeira maciça podia reconstruir o pai aos poucos: A mão, grande e calejada, agarrando o bastão pelo meio nas caminhadas pela fazenda. O braço magro brandindo a vara pra tanger o gado ou afastar algum bicho afoito que surgia às vezes do meio do mato. O peito fraco, arfante com a doença que o fazia dobrar-se de tosse. Até aí estava o cajado, apoio fiel que o pai, depois de erguer-se e ver o rosto preocupado do filho, usava pra tranquilizá-lo. Sorria de lado e dava-lhe uma cutucada nas costelas, uma pancada marota na cabeça. “Não é nada, guri. Teu velho é mais duro que isso”. Era um membro de seu pai, um braço. Ele passou o dedo sobre o monograma talhado na cabeça de ferro e riu, entre divertido e amargo. Como se fosse necessário. Como se alguém pudesse achar a bengala e não saber a quem pertencia. Respirou fundo e olhou ao seu redor, divisando na penumbra da manhã, os poucos objetos que havia naquela cela.
“Minha cela”, voltou a pensar ele, e esta ideia lhe animou. Ergueu-se, apoiando-se no bastão e foi até a bacia de pedra. Lavou-se, barbeou-se e vestiu-se. Aquele era um grande dia.

* * *

Ele gostava do garoto. Era esperto. Bom. Honesto e decente. Havia chegado na cidade órfão de pai, levado pela doença, e de mãe, morta no parto, e em poucos meses de emprego na cozinha já sabia ler e escrever. Os outros cozinheiros voltavam para suas casas após a última refeição, mas Aidan não. Fingia que ia com eles, sim, mas voltava para os alojamentos, buscava um livro na seção pública e se escondia no sótão, onde havia separado um pouco de palha que lhe fazia às vezes de colchão e uma vela que lhe permitia ler noite adentro. Dormia pouco, lia muito. Logo, começou a ler durante o trabalho. Seu vocabulário se expandiu. Seus horizontes aumentaram, e a conversa chula da cozinha logo não lhe entretinha mais. Ficou só.
Tudo isso havia observado e deduzido a partir de dicas e sugestões muito sutis, mas que para ele contavam a história tão claramente como se ele a tivesse testemunhado. Um pouco de palha que sumira dos estábulos, parafina que fora encontrada entre as tábuas do teto da cozinha, as olheiras de Aidan no começo das manhãs, o resmungo dos cozinheiros sobre o “novato metido a esperto”, os assados que começaram a vir passando do ponto. Tudo isso eram pontos de uma figura para ele era muito fácil de ligar. Bertrem Primeiro-dos-Irmãos, líder da Ordem dos Estetas e guardião da Grande Biblioteca de Palanthas desde que Astinus desaparecera, se orgulhava da sua capacidade de observação, mas o fazia com reserva. Um Esteta tinha um dever para com a análise desapaixonada, a análise e o relato frio, e se ele podia dar-se ao luxo do orgulho, não podia permitir deixar-se cegar por ele.
Este era outro motivo para gostar do garoto – ele era humilde. Sua ascensão meteórica pelos postos da ordem não o havia tornado ambicioso, e isso era raro. Bertrem bem sabia disso. Mais de uma vez ele se pegara mirando a porta do gabinete de Astinus, mantido fechado desde que o Grande Sábio sumira inexplicavelmente, e pensando como reagiriam os irmãos se ele entrasse naquela sala, se declarasse finalmente que Astinus não voltaria e que ele, sim, ele, Bertrem, era não mais “Primeiro-dos-Irmãos”, essa posição insossa e ultrajante, inventada para cobrir a verdade que todos conheciam mas não ousavam dizer. Para todos os efeitos ele era o Grande Sábio, ele era o Mestre da Grande Biblioteca de Palanthas, ao inferno com Astinus que sumiu e abandonou a Ordem. E por que não? Quem mais poderia almejar à essa honra? Quem m…
Não. Esta não era a hora. Bertrem suspirou e voltou-se para a sua escrivaninha. Estivera mirando as ruas de Palanthas pela janela de seu gabinete, mas tudo que via era a porta do gabinete de Astinus. Tomou um gole d’água e limpou a cabeça. Em alguns minutos, Aidan subiria ao seu gabinete e seria jurado Camareiro, o posto de confiança do líder da ordem, e ele devia ao garoto a sua total atenção. Era o mínimo. Nesses dias traiçoeiros, entre as maquinações do Lorde Cavaleiro para obrigá-lo a limitar o acesso da população a certos tomos e as tramas que se teciam entre os conselheiros da Ordem para derrubá-lo, Aidan havia sido uma rocha de firmeza, sempre ao seu lado. Por isso ele não ligava para os rumores de salão que a nomeação de um rapaz tão jovem e há tão pouco tempo na Ordem havia criado. Que falassem. Ele sabia que podia confiar no garoto. Ele era seu esteio, seu único ponto de apoio. Seu cajado.

* * *

Aidan postou-se diante da sala de Bertrem usando as vestes cinzas de um Alto Irmão, mas sairia de lá com o capuz escuro do Camareiro. Ele havia estudado o ritual nos livros que a Ordem possuía sobre a própria Ordem (um objeto interessante de estudo: Sempre escrevendo com a honestidade brutal que seu treinamento exigia, os irmãos não encolhiam suas penas nem mesmo quando tratavam de si, e várias críticas surgiam durante o texto) e já o conhecia muito bem: Ele deveria anunciar sua entrada batendo na porta três vezes. O Primeiro-dos-Irmãos prepararia a sala para o ritual e o chamaria. Aidan entraria na sala completamente escura da posse de uma vela apagada. Sua lealdade à ordem, ao conhecimento puro e à verdade inalterada seria questionada, e se suas respostas fossem satisfatórias, Bertrem acenderia a sua vela usando uma lamparina antiquíssima, forjada pelo próprio Astinus, nomeando-o formal e simbolicamente guardião da luz do conhecimento que estava armazenado naquela biblioteca. Ele trocou o peso de um pé para o outro e sentiu as agulhas picarem sua pele. O suor na base das costas grudava o manto contra o corpo. Apertou o cajado e pensou no pai, que nunca lera uma oração a Paladine na vida e jamais sonhara com os mundos inteiros que a Biblioteca projetava em suas estantes. Tranquilizou-se. Fechou os olhos e bateu com a ponta do bastão três vezes, firmemente, na grande porta de carvalho.

* * *

Bertrem ouviu as pancadas e sorriu largamente. Como era corajoso esse menino! Bateu na porta como um homem que anuncia que está pronto para a luta. Ele gostou disso. Levantou-se e foi até as suas janelas. A sala deveria estar em perfeita escuridão para o ritual, a tradição deveria ser observada. Desfez o nó das fitas de seda que amarravam as cortinas e logo a sala estava imersa na penumbra. O sol já tocava o topo das montanhas mais altas à oeste e o calor aumentava. Aquele seria um verão seco. Bertrem notou uma borda escura, uma chanfra na borda do sol. Um eclipse? Estranho. Ninguém na Ordem havia comentado. Mas ultimamente todos estavam preocupados demais com a política. Faltava uma liderança que desse direção a Ordem. Enquanto aqueles velhos acadêmicos se perdiam em discussões inúteis, o conhecimento e o projeto eterno de registrar a história de Krynn sofriam. Se ele tomasse o poder…Não. Aquela não era a hora. Virou-se de sua última janela e rememorando as perguntas que deveria fazer, foi até a gaveta de sua grande escrivaninha para pegar a lamparina de Astinus.

* * *

“Entre”, disse a voz de dentro, mais séria e grave do que ele esperava, depois de uma pausa mais longa do que ele tinha imaginado. Com um último suspiro, Aidan tocou a grande aldrava em forma de leão e puxou as portas. Em três passos largos, estava dentro do estúdio de Bertrem, um cômodo que ele conhecia bem, mas que agora escondia-se por trás de um véu de trevas. BLAM. As portas fecharam-se atrás dele. Num gesto decidido, ele colheu de suas vestes uma grande vela de cera amarelada e de pavio torcido, um círio antiquado e que cheirava a sândalo.
“Você veio até aqui só. O que pode um só contra as mil sombras do mundo?”
“Os amigos dos livros nunca estão sós”
“Você é apenas carne. Você passará. O que pode um mortal contra a escuridão da morte?”
“A carne é transitória, as narrativas são eternas. O conhecimento é imortal.”
“A pena contra a ignorância e o medo. O que pode um livro contra as trevas do esquecimento?”
Aidan engoliu em seco. Aquelas não eram as perguntas que ele havia estudado.
“Nada. Mas tudo que é esquecido pode ser lembrado. A Ordem registra. A Ordem nunca esquece.”
“Os livros apodrecem empoeirados nas estantes, a Ordem se perde em jogos de poder e política. O que podem os seus registros diante do negrume da ambição humana?”
“A curiosidade é uma vela no escuro. Nós estamos perdidos, ela é o nosso guia.” Ele parou, incerto. “Cabe ao Camareiro alimentar essa chama.”

Uma pausa. Suor gorduroso escorria pelo nariz de Aidan.
“Você vem de sua livre e espontânea vontade?”
“Sim.”
“Você jura proteger a busca pelo Conhecimento a todos os custos?”
“Sim.”
“Acima de seus próprios interesses?”
“Sim!”
“Então como você me explica isso?”
As cortinas se abriram, e a luz do sol feriu os olhos desacostumados de Aidan.

* * *

“Estou esperando uma resposta”, vociferou Bertrem, de pé e apoiado sobre os punhos cerrados na escrivaninha. O semblante furioso do Primeiro-dos-Irmãos contrastava com a expressão confusa de Aidan, que ainda segurava em uma das mãos a vela. Ele piscou, ainda se acostumando com a luz do sol e viu, sobre a escrivaninha, um grande livro encadernado em fino couro, grosso como um tronco de árvore e reforçado nas bordas com tiras de metal. Na capa, em caligrafia de bico de pena e letras douradas, os dizeres: “A Forja do Futuro – Vida e Morte dos Cinco da Serpente na 5ª Era de Krynn, contada por Aidan Primeiro-dos-Irmãos, líder da Ordem dos Estetas e guardião da Grande Biblioteca de Palanthas”.
“E então?!”, inquiriu Bertrem, com um murro impaciente na escrivaninha.
“Senhor, eu não…”
“NÃO MINTA PRA MIM, seu verme imundo! Eu reconheço os da sua laia de muito longe! Você é bom, eu admito, chegou muito perto, mas não perto o suficiente! Qual era o seu plano? Hm?”
“Bertrem, por fav…”
“Clamar que este era um sinal? Que você deveria ser o líder? Que um livro, um livro com a marca de Astinus” ele frisou, rilhando os dentes e apontando para o brasão da pena e do pergaminho cruzados na lombada “lhe serviria de passagem para o que é meu de direito? Seu rato miserável, eu dev…”
“Bertrem!” Aidan exclamou, mais duramente do que gostaria. Apoiando-se no cajado, falando firme daquele jeito, sentiu a mão do seu pai em seu ombro. “Não seja tolo, senhor! Por favor, eu não sei de onde este livro apareceu, mas é claramente uma falsificação barata, algum tipo de truque para lhe desestabilizar. Jogue-o fora, atire-o ao fogo e deixemos isto para trás!”
Bertrem manteve seu olhar fixo em Aidan enquanto levantava o livro à altura da vista e o virava para o do jovem. Ele abriu a capa e a primeira página possuía uma citação.
“Diga aos seus leitores o que ouvir e o que ver. Nunca o que pensar” leu Bertram sem olhar para o livro, os olhos injetados. “Astinus me disse isso no dia em que me tornei seu Camareiro. Estas palavras estão registradas em três lugares: Na minha memória, na dele e no livro sobre o ritual de iniciação dos Camareiros, e eu e você sabemos que só uma pessoa na história desta biblioteca teve a paciência de pegar aquele livro emprestado”, ele disse sem se preocupar em esconder o sarcasmo enquanto fechava o livro e o colocava na mesa para pontuar sua fala “Não preciso olhar os registros para isso, Aidan”.
“Senhor…”
“Por favor” exasperou-se Bertrem. “Não comece.”
O silêncio tomou a sala. Bertrem suspirou, e encarou o chão pesaroso. A raiva parecia ter dado lugar à melancólica solidão dos traídos. O coração de Aidan batia fortemente, seus olhos chispavam buscando uma informação.
“Seja honesto comigo. Serei generoso. Não posso garantir a sua posição, não posso garantir sua permanência na ordem, mas” ele levantou os olhos para Aidan “posso garantir sua liberdade. Não estou totalmente enganado sobre você. Sou inteligente demais para isso. E um simples garoto de fazenda não teria armado tudo isso sozinho”. Uma pausa. “Quem o enviou?”
Aidan estava sem palavras. Não parecia haver uma maneira de demover Bertrem, Bertrem, seu mentor, que há poucos minutos atrás era um segundo pai para ele, da ideia insana e ridícula de que ele, através de algum esquema mirabolante, buscava removê-lo de sua posição de líder. O velho estava mais paranoico do que ele pensava. Sempre soubera que ele via conspirações onde não havia nada, e várias vezes eles já haviam conversado sobre coisas que Aidan sabiam ser mera invenção da cabeça senil do Primeiro-dos-Irmãos, mas Aidan as tomava como trejeitos inofensivos de seu mestre, traços adoráveis de personalidade. Agora alguém havia se aproveitado deles e armado uma arapuca – sim, porque o livro estava ali, e alguém o havia posto lá. Mas quem? Quem? Aidan precisava de tempo, tempo para pensar, e para isso precisava jogar o jogo de Bertrem.
“Não estamos seguros aqui”, disse Aidan subitamente adotando um tom apressado. “Proteja-me até que eu possa lhe dizer o que você quer saber e você terá tudo que deseja”. Ato contínuo, Aidan foi até a escrivaninha, apanhou o livro e fez um sinal para que Bertrem o acompanhasse.
“Espere!” Exclamou o líder. “Os irmãos esperarão que você saia daqui como o Camareiro”. “Me enoja dar estas vestes que já foram minhas a uma cobra peçonhenta como você, mas para expor o rei dos ratos o sacrifício será feito. Troque de roupas”

* * *

“Não foi nesta situação que imaginei usar estas vestes”
“Acredite, o mesmo vale para mim. Você está com o livro? Então siga-me.”
“Para onde vamos?”
“Para o único lugar seguro de todo o prédio. O Gabinete de Astinus”, Bertrem sorriu entre a arrogância e a surpresa diante de sua própria coragem.
“Senhor! A entrada lá é proibida!”
“Não OUSE me lembrar das regras da ordem, verme” destilou Bertrem, “As conheço melhor do que você e as honrava quando você ainda era uma criança. Sou o mais indicado para quebrá-las. Já estou com a chave, minha decisão está tomada” disse Bertrem tomando a frente de Aidan
Daquela época na fazenda Aidan trazia pouca coisa: O costume de dormir pouco, que, tão cedo na manhã, lhe fez mais desperto e rápido que seu mestre; o corpo forte de quem cresceu lavrando o chão, que lhe permitiu sobrepujar o frágil Bertrem facilmente; e o pesado cajado de seu pai, que num golpe seco na cabeça, levou o Primeiro-dos-Irmãos ao chão, desacordado. Ele arrastou o líder da Grande Biblioteca de volta para o seu escritório.
“Desculpe, mestre”, ele sussurrou enquanto o acomodava da maneira mais confortável possível longe da vista de quem entrasse, sob a escrivaninha “mas há algo errado aqui, e eu descobrirei o que é”. Avidamente, depositou o livro sobre a mesa e o abriu.
A primeira página tinha a citação de Astinus, numa caligrafia estranha, floreada. A segunda…estava em branco. Aidan franziu o cenho e, sem pensar, aproximou a lamparina de Astinus da página, procurando algum sinal. Com um estalo seco, a lâmpada se acendeu e tinta negra brotou das páginas formando um grande letreiro adornado:

“FUTURO FOGO FRIO, PARTE III DE IV – AIDAN ABRE O GABINETE”

A lamparina foi ao chão.

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Futuro Fogo Frio, Parte I de IV
Tribulações do Sentinela

Além de tudo que existe ou já existiu, fora do tempo e do espaço, a fortaleza de Firmamento está e sempre estará / é e sempre será. O Universo é movimento. Dançam os planetas, queimam as estrelas…O frio do vácuo esconde o fervor com que arde a fornalha dos átomos. Não em Firmamento. Único ponto inamovível, imutável do cosmos, leito sólido que permite que o rio selvagem flua, Firmamento é a única costura de uma realidade que é, de outra maneira, feita de pano único; É o alfinete, a viga mestra, a carta de baralho que sustenta sozinha o castelo de cartas. Aqui não se aplicam as regras normais que conhecemos: Não há entropia; Não há perdas; Não há ganhos. Só há a eterna permanência dos corredores infinitos, impossíveis de serem descritos ou mensurados pela nossas escalas – Firmamento não tem limites, não pode ser definida. O castelo é tecido de um material diferente da tessitura dos mundos, uma linha mais forte para segurar a tapeçaria toda. E caminhando por entre os corredores repletos de estantes gargantuais, lotadas de tomos que registram tudo o que irá acontecer e já aconteceu, está o Sentinela.

O velho caminha por sobre a pedra fria cumprindo seu trabalho milenar e igualmente imutável: Assegurar-se de que tudo ali permaneça. A barra de seu manto, feita de nebulosas entrelaçadas, arrasta-se pelo chão levantando faíscas. Seu cajado curvado de madeira nodosa parece mais velho que ele.

Súbito, ele estaca. Há algo de estranho. Ele pode sentir. Ele dirige-se apressadamente a um balcão e vira seus olhos de galáxia à procura da fonte do distúrbio, que ele não consegue definir o que é, mas está lá, como um pedaço de comida entre os molares que não se consegue parar de tocar…O que está diferente? Por que está diferente? Por que ele não sabia que ia estar diferente? Como pode um ser onisciente estar surpreso? O Sentinela sente algo que nunca sentiu: Curiosidade e medo. Há algo aqui que não deveria estar aqui e ele busca freneticamente, vendo tudo que já houve e haverá em todos os lugares existentes, como alguém procurando as pequenas imperfeições que diferenciam entre rostos de gêmeos idênticos.

Da maneira mais sutil e leve, do jeito mais gentil e lento, a fortaleza de Firmamento inclinou-se e vibrou. Diria-se que um átomo mudou de lugar, ou que um elétron mudou de órbita antes da hora, tão suave foi a alteração. Para a encarnação do pilar da Existência, entretanto, a mudança era INCONCEBÍVEL. Aquela era a SUA casa, e ela deveria manter-se absolutamente estável sob pena de todo o oceano de realidade que rugia ao redor dela ruir. A vibração, entretanto, lhe deu as pistas que precisava para encontrar a origem dessa absoluta aberração cósmica.

Krynn. O que quer que fosse, começava em Krynn.

Ele subiu até às Janelas Eternas e contemplou o planeta.

* * *

O monte Kalkhanis, nas montanhas Kharolis, é o primeiro dos Picos Sentinelas, os mais altos e que serviam de fortificação natural para os povos da região. Do alto dele, numa manhã clara de verão, se você tiver boas costas para escalar e bons pulmões para suportar o ar frio que escorrega pela garganta como gelo moído, pode-se divisar toda a Abanassínia em sua glória. É possível ver daqui um fio de fumaça etéreo subindo de um bosque – é o povoado de Solace, cidade construída nas copas das árvores e conectada por pontes, um dos maiores vilarejos da região. Pode-se enxergar Pax Tharkas, A “Cidade da Paz” que foi construída em comunhão por elfos Qualinesti, anões de Thorbadin e humanos de Ergoth.E se você tiver olhos de elfo para mirar o sol sem virar o rosto, poderá olhar diretamente para o nascente e ver, recortadas contra o céu ensanguentado da aurora, postes de cerca, como contas no colar do horizonte. São as torres de vigília da Cerca dos Braseiros, um conjunto de torres de comunicação que ligam as fortalezas gêmeas de Mar-Teevin e Van-Sargan e permitia que uma soubesse quando a outra estava sendo atacada ou precisava de ajuda. Há dezenas de anos, porém, que as fogueiras não eram acesas. O serviço nas torres tornou-se frouxo, os cavaleiros designados para suas posições deixaram de ser os jovens leões pronto pra batalha; Os tempos de paz trouxeram para o Braseiro os velhos demais para lutar, os que haviam perdido membros em combate ou o espírito de guerra. Uma aposentadoria num serviço tranquilo e fácil. Um prêmio para os veteranos.

Foi por isso que naquela manhã o sinal demorou tanto para ser transmitido. Os dois responsáveis pela segunda torre – como todas as outras, há dois dias de viagem das suas irmãs – passaram horas discutindo se aquele chamusco no horizonte era uma peça pregada pelo reflexo do sol em algum lago ou se um pedido de ajuda. A cena se repetiu em todas as torres. Cegos demais para ver o fogo e a fumaça, surdos demais para ouvir os sinos de guerra, os veteranos do Braseiro só acenderam suas fogueiras e tocaram os seus sinos quando o exército invasor já estava aos pés de suas torres. Não eram mais fogueiras de alerta: Eram suas piras funerárias. Não eram mais sinos de aviso: Eram lamentos fúnebres. Uma por uma elas caíram, e a fortaleza de Mar-Teevin foi pega tão de surpresa quanto à de Van-Sargan.

Eles se ergueram do mar. Os Pálidos se ergueram do mar. De olhos cinzentos e pele branca como alabastro, cabelos descoloridos e toque frio, eles se ergueram do mar. Sugando o calor vital do chão e do ar daquela manhã de verão, trazendo consigo nuvens de chuva rala e um frio incômodo, um frio que poderia ser melhor descrito não como uma presença gelada, mas uma ausência de calor: Não era o frio das neves, o frio extremo do gelo de Icereach. Ali havia vida, havia a selvageria dos ursoi e dos bárbaros das neves. Era o frio cadavérico que surge quando uma fogueira se apaga, o frio das estrelas mortas. No céu, começava um eclipse completamente inesperado por astrônomos, e as nuvens baixas e pesadas tornavam a paisagem ainda mais aterradora e cinzenta. Elas também se erguiam do mar.

Eles escalaram as muralhas de Van-Sargan com a precisão cirúrgica de abelhas em enxames. Invadiram a caserna, os alojamentos como se soubessem onde atacar primeiro. A escuridão do eclipse lhes serviu de manto, as nuvens cinzentas da garoa foram o seu capuz. As fogueiras que se acendiam para a primeira refeição do dia logo se apagaram com a sua mera presença. Os Cavaleiros de Solamnia lutaram bravamente, mas mesmo a chama de sua coragem parecia tremular e falhar diante do inexorável avanço daquela horda. Não puderam lidar com a força esmagadora de números, o elemento surpresa e a persistência incansável dos oponentes, que não se importavam com cortes, membros perdidos…Não se pode matar o que não sangra. E os caídos, impotentes diante da morte, erguiam-se depois para engrossar os números do exército.

No horizonte, montado num corcel cinzento, um homem de estatura impressionante e trajado em armadura completa mirava a fortaleza impassível. Pele pálida como os outros, o rosto curtido de sol e sofrimento tinha cicatrizes profundas e antigas na testa e nos olhos. A boca era invisível, o queixo também, ambos perdidos na escuridão do elmo. Era rosto de malares altos, fortes e marcados, como se o crânio tivesse sido talhado a faca em madeira dura. Enfiados fundo na cabeça, os olhos do cavaleiro pegavam fogo, fixos como obsessões, imóveis como montanhas. Também ardia uma pedra, um carvão enfiado no centro do tórax de sua armadura. Não era um adorno, ele também aparecia em suas costas. A pedra atravessava o corpo do cavaleiro, e queimava com raiva. Brilhou especialmente quando ele viu seu exército retornar e postar-se diante dele, maior agora em 130 homens, e aguardar instruções. O pescoço se moveu devagar, como se girasse em eixos antigos, e a cabeça girou levando consigo os olhos ainda imóveis, que pareciam levar pedaços da paisagem consigo à medida em que se deslocavam. Corpo empertigado e mirando a direção do Braseiro e de Mar-Teevin e disse, a voz como lixa contra pedra, no sussuro baixo e seco dos acostumados a mandar:

- Mais.

Os Pálidos marcharam.

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Prefácio

Estas são histórias de profecias, predestinação e livre-arbítrio; de juramentos partidos e profecias cumpridas, de honras testadas e vontades impostas; de poemas mais fortes que exércitos, música mais sublime que a magia das luas e de amores e ciúmes mais quentes que a superfície do sol; de clangores de espadas no campo de batalha e de facas silenciosas no meio da noite; de grilhões partidos e liberdade tardia, de homens (E mulheres!) contra os Deuses e a tirania do Tempo e dos destinos escritos; da Forja do Futuro e dos Cinco da Serpente, de como eu me tornei Primeiro dos Irmãos e de como toda a Krynn mudou naquele ano de 423 PC. São as histórias d’aquele que estava perdido e se encontrou, do que estava morto e retornou e do equilibrío que se perdeu e foi reestabelecido, mas acima de tudo esta é a história de Emmelin, Egeon, Ti Fei e Derium e de como todos eles foram esquecidos, exceto por mim.

Exceto por mim.

Aidan

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