Forja do Futuro

Futuro Fogo Frio, Parte I de IV

Tribulações do Sentinela

Além de tudo que existe ou já existiu, fora do tempo e do espaço, a fortaleza de Firmamento está e sempre estará / é e sempre será. O Universo é movimento. Dançam os planetas, queimam as estrelas…O frio do vácuo esconde o fervor com que arde a fornalha dos átomos. Não em Firmamento. Único ponto inamovível, imutável do cosmos, leito sólido que permite que o rio selvagem flua, Firmamento é a única costura de uma realidade que é, de outra maneira, feita de pano único; É o alfinete, a viga mestra, a carta de baralho que sustenta sozinha o castelo de cartas. Aqui não se aplicam as regras normais que conhecemos: Não há entropia; Não há perdas; Não há ganhos. Só há a eterna permanência dos corredores infinitos, impossíveis de serem descritos ou mensurados pela nossas escalas – Firmamento não tem limites, não pode ser definida. O castelo é tecido de um material diferente da tessitura dos mundos, uma linha mais forte para segurar a tapeçaria toda. E caminhando por entre os corredores repletos de estantes gargantuais, lotadas de tomos que registram tudo o que irá acontecer e já aconteceu, está o Sentinela.

O velho caminha por sobre a pedra fria cumprindo seu trabalho milenar e igualmente imutável: Assegurar-se de que tudo ali permaneça. A barra de seu manto, feita de nebulosas entrelaçadas, arrasta-se pelo chão levantando faíscas. Seu cajado curvado de madeira nodosa parece mais velho que ele.

Súbito, ele estaca. Há algo de estranho. Ele pode sentir. Ele dirige-se apressadamente a um balcão e vira seus olhos de galáxia à procura da fonte do distúrbio, que ele não consegue definir o que é, mas está lá, como um pedaço de comida entre os molares que não se consegue parar de tocar…O que está diferente? Por que está diferente? Por que ele não sabia que ia estar diferente? Como pode um ser onisciente estar surpreso? O Sentinela sente algo que nunca sentiu: Curiosidade e medo. Há algo aqui que não deveria estar aqui e ele busca freneticamente, vendo tudo que já houve e haverá em todos os lugares existentes, como alguém procurando as pequenas imperfeições que diferenciam entre rostos de gêmeos idênticos.

Da maneira mais sutil e leve, do jeito mais gentil e lento, a fortaleza de Firmamento inclinou-se e vibrou. Diria-se que um átomo mudou de lugar, ou que um elétron mudou de órbita antes da hora, tão suave foi a alteração. Para a encarnação do pilar da Existência, entretanto, a mudança era INCONCEBÍVEL. Aquela era a SUA casa, e ela deveria manter-se absolutamente estável sob pena de todo o oceano de realidade que rugia ao redor dela ruir. A vibração, entretanto, lhe deu as pistas que precisava para encontrar a origem dessa absoluta aberração cósmica.

Krynn. O que quer que fosse, começava em Krynn.

Ele subiu até às Janelas Eternas e contemplou o planeta.

* * *

O monte Kalkhanis, nas montanhas Kharolis, é o primeiro dos Picos Sentinelas, os mais altos e que serviam de fortificação natural para os povos da região. Do alto dele, numa manhã clara de verão, se você tiver boas costas para escalar e bons pulmões para suportar o ar frio que escorrega pela garganta como gelo moído, pode-se divisar toda a Abanassínia em sua glória. É possível ver daqui um fio de fumaça etéreo subindo de um bosque – é o povoado de Solace, cidade construída nas copas das árvores e conectada por pontes, um dos maiores vilarejos da região. Pode-se enxergar Pax Tharkas, A “Cidade da Paz” que foi construída em comunhão por elfos Qualinesti, anões de Thorbadin e humanos de Ergoth.E se você tiver olhos de elfo para mirar o sol sem virar o rosto, poderá olhar diretamente para o nascente e ver, recortadas contra o céu ensanguentado da aurora, postes de cerca, como contas no colar do horizonte. São as torres de vigília da Cerca dos Braseiros, um conjunto de torres de comunicação que ligam as fortalezas gêmeas de Mar-Teevin e Van-Sargan e permitia que uma soubesse quando a outra estava sendo atacada ou precisava de ajuda. Há dezenas de anos, porém, que as fogueiras não eram acesas. O serviço nas torres tornou-se frouxo, os cavaleiros designados para suas posições deixaram de ser os jovens leões pronto pra batalha; Os tempos de paz trouxeram para o Braseiro os velhos demais para lutar, os que haviam perdido membros em combate ou o espírito de guerra. Uma aposentadoria num serviço tranquilo e fácil. Um prêmio para os veteranos.

Foi por isso que naquela manhã o sinal demorou tanto para ser transmitido. Os dois responsáveis pela segunda torre – como todas as outras, há dois dias de viagem das suas irmãs – passaram horas discutindo se aquele chamusco no horizonte era uma peça pregada pelo reflexo do sol em algum lago ou se um pedido de ajuda. A cena se repetiu em todas as torres. Cegos demais para ver o fogo e a fumaça, surdos demais para ouvir os sinos de guerra, os veteranos do Braseiro só acenderam suas fogueiras e tocaram os seus sinos quando o exército invasor já estava aos pés de suas torres. Não eram mais fogueiras de alerta: Eram suas piras funerárias. Não eram mais sinos de aviso: Eram lamentos fúnebres. Uma por uma elas caíram, e a fortaleza de Mar-Teevin foi pega tão de surpresa quanto à de Van-Sargan.

Eles se ergueram do mar. Os Pálidos se ergueram do mar. De olhos cinzentos e pele branca como alabastro, cabelos descoloridos e toque frio, eles se ergueram do mar. Sugando o calor vital do chão e do ar daquela manhã de verão, trazendo consigo nuvens de chuva rala e um frio incômodo, um frio que poderia ser melhor descrito não como uma presença gelada, mas uma ausência de calor: Não era o frio das neves, o frio extremo do gelo de Icereach. Ali havia vida, havia a selvageria dos ursoi e dos bárbaros das neves. Era o frio cadavérico que surge quando uma fogueira se apaga, o frio das estrelas mortas. No céu, começava um eclipse completamente inesperado por astrônomos, e as nuvens baixas e pesadas tornavam a paisagem ainda mais aterradora e cinzenta. Elas também se erguiam do mar.

Eles escalaram as muralhas de Van-Sargan com a precisão cirúrgica de abelhas em enxames. Invadiram a caserna, os alojamentos como se soubessem onde atacar primeiro. A escuridão do eclipse lhes serviu de manto, as nuvens cinzentas da garoa foram o seu capuz. As fogueiras que se acendiam para a primeira refeição do dia logo se apagaram com a sua mera presença. Os Cavaleiros de Solamnia lutaram bravamente, mas mesmo a chama de sua coragem parecia tremular e falhar diante do inexorável avanço daquela horda. Não puderam lidar com a força esmagadora de números, o elemento surpresa e a persistência incansável dos oponentes, que não se importavam com cortes, membros perdidos…Não se pode matar o que não sangra. E os caídos, impotentes diante da morte, erguiam-se depois para engrossar os números do exército.

No horizonte, montado num corcel cinzento, um homem de estatura impressionante e trajado em armadura completa mirava a fortaleza impassível. Pele pálida como os outros, o rosto curtido de sol e sofrimento tinha cicatrizes profundas e antigas na testa e nos olhos. A boca era invisível, o queixo também, ambos perdidos na escuridão do elmo. Era rosto de malares altos, fortes e marcados, como se o crânio tivesse sido talhado a faca em madeira dura. Enfiados fundo na cabeça, os olhos do cavaleiro pegavam fogo, fixos como obsessões, imóveis como montanhas. Também ardia uma pedra, um carvão enfiado no centro do tórax de sua armadura. Não era um adorno, ele também aparecia em suas costas. A pedra atravessava o corpo do cavaleiro, e queimava com raiva. Brilhou especialmente quando ele viu seu exército retornar e postar-se diante dele, maior agora em 130 homens, e aguardar instruções. O pescoço se moveu devagar, como se girasse em eixos antigos, e a cabeça girou levando consigo os olhos ainda imóveis, que pareciam levar pedaços da paisagem consigo à medida em que se deslocavam. Corpo empertigado e mirando a direção do Braseiro e de Mar-Teevin e disse, a voz como lixa contra pedra, no sussuro baixo e seco dos acostumados a mandar:

- Mais.

Os Pálidos marcharam.

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PedroSette

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